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Thursday, June 7, 2012

Conto: "Dança do Corvo (8ª parte) – Despedidas"


   - Quando partes? – pergunta Hayato, largando o cachimbo e passeando os olhos pela linha de árvores, onde os seus guerreiros aguardavam ordens.
            
   - De imediato – responde a vampira, agarrando a katanae erguendo-se. – Dentro de 4 dias será Lua Cheia, espero chegar à costa antes disso.
            
   - Esperam-te? – questiona, levando a taça de sakeaos lábios, por entre as barbas brancas.
            
   - Cada Lua Cheia, na praia onde cheguei – afirma, encaixando a espada entre o cinto e o hakama, recordando o acordo que fizera com Miguel, na noite em que fora traficada para o país, dentro de um barril. Ao mesmo tempo procura esquecer que teria de voltar a atravessar o oceano, tentando esconder de Hayato o seu medo patológico de grande superfícies de água.
            
   - Durante mais de 30 anos? – admira-se o velho tengu, suspendendo a ingestão do sake e olhando de soslaio para os olhos azul-esverdeados da vampira. – Tens amigos estranhamente leais, Eleanora-chan.
            
   - Assim o espero – alega, sorrindo perante a lembrança dos belos olhos azuis e caracóis louros de Miguel. Sentia falta dele…
            
   - Não tens o salvo-conduto contigo – constata, pousando a taça e perscrutando a amiga com os penetrantes olhos pretos. – Irás buscá-lo? Oh… Estou a ver…
            
   - Far-lhe-á mais falta a ela do que a mim – defende, desviando o olhar, não se sentido confortável a discutir o tema. Tomara a decisão quando partira, não podia dar-se ao luxo de revisitá-la. Ou, pelo menos, não o queria…
            
   - Então irás sozinha? Ela sentirá a tua falta…
            
   - É melhor assim – reforça, tanto para si, como para o mestre, fingindo não ouvir a censura na sua voz. Sobre aquela questão não admitia o parecer de ninguém, nem mesmo dele.    
            
   Memórias insistem em surgir, ameaçando minar a sua resolução. Olhos amendoados, castanho-esverdeados, que desaparecem atrás das pálpebras quando a faz gemer de prazer. A sua mão a passar pelos longos e lisos cabelos negros, antes de desaguar na curvatura sinuosa de costas nuas. Lábios finos, pintados vermelhos pelo sangue fresco, que lhe acariciam o mamilo duro, antes de rodar a língua nele…
            
   Eleanora expulsa as recordações, temendo o seu poder. Fizera a sua escolha. Nada ganharia em mudar de ideias. Era melhor assim…        
            
   - Sabes que se não levares o salvo-conduto será difícil regressar. Talvez até tenhas de voltar a enfrentar as mesmas provações… – adverte o velho tengu. – Não podes contar que todos aqueles que se lembram de ti sobrevivam até lá…
            
   - Hayato-oji, viverás mais anos do que aqueles que já vi. O próprio Deus da Morte não te quer! – brinca a vampira, rasgando um riso malicioso, aproveitando para afastar o que a atormentava.
            
   - Ah! Verdade! Verdade! – concorda, batendo com a palma da mão no joelho. Via bem que algo consumia a amiga, porém, respeitando a escolha dela em não falar sobre o assunto, assim como, não querendo embaraçar-se perante a despedida, aceita a oportunidade para aligeirar a conversa. – Tentarei manter as coisas organizadas por aqui, enquanto espero a desforra, Eleanora-chan. A propósito, se vais sem salvo-conduto seria melhor teres companhia até à costa, não? Shou-kun poderá levar-te. Shou-kun, vem cá! É grosseiro, mas uma jóia de moço.
            
   - Eu sei – reconhece, vendo o jovem tengu de asas castanhas e naginata cortada, voar na sua direcção. – Hayato-sama, obrigado!
            
   A vénia é profunda, abarcando muito mais do que o agradecimento pela escolta e o mestre retribui o grau de reverência. Pela primeira desde que qualquer um dos jovens guerreiros se lembra, a testa de Hayato-sama toca no solo. Então souberam que a Oculta os superara, tornando-se não só uma verdadeira yokai, como um dos Corvos.       

Wednesday, June 6, 2012

Conto: "Dança do Corvo (7ª parte) – Uma nova Era"


   Hayato repôs o cachimbo na boca, balançando-o pensativamente. Não sabia o que o seu povo decidiria, nem lhe interessava. Ele não iria abandonar o mundo e recolher para uma aldeola perdida nas montanhas, onde passaria os seus últimos dias como um qualquer velho caduco e aleijado. Os tengu e os yokai em geral ainda precisavam da sua espada e, enquanto tivesse força para a erguer, viveria segundo ela.
            
   Abolida a sakoku humana, agora, mais do que nunca, crescia o risco dos Ocultos estrageiros invadirem aquele solo, corrompendo-o com os seus conflitos, que dilacerariam o modo de vida dos yokai, os Ocultos japoneses. Isto para não falar do risco crescente de entrarem no país Obliteradores, soldados dessa gigantesca sociedade secreta cujo único propósito parecia ser exterminar seres paranormais. Foram as histórias de Eleanora sobre o horror desse flagelo que atormentava as espécies sobrenaturais além-mar, que insuflaram em Hayato a necessidade de manter-se vigilante. Ironicamente, a única Oculta que desejava conservar no país, era aquela que não conseguia.
            
   - Os yokai têm muito para decidir sozinhos e esses são debates em que não me quero envolver – justifica Eleanora, passando as mãos pelo cabelo, procurando verificar se ele regenerara o suficiente para voltar a ser preso.
            
   - Sentes falta do que deixaste, não é? – inquire, tão perspicaz como sempre, enchendo a taça com sake e tragando-o de um gole, antes de voltar a equilibrar o cachimbo na boca.  
            
   - Sim – confirma, prendendo os cabelos e sendo incapaz de evitar um sorriso perante as memórias das terras e gentes que conhecera do outro lado do mar. – Além do mais, não consigo afastar esta ideia, talvez utópica, de o resto do mundo usufruir do mesmo que vocês criaram. A comunidade yokai pode não ser perfeita, mas sempre é melhor que o caos generalizado que há lá fora! Talvez com ela tivéssemos hipótese de enfrentar os Obliteradores, de viver algo parecido com uma existência livre, sem olhar constantemente por cima do ombro. Não sei… se calhar é uma tarefa demasiado grande para uma simples vampira…
            
   - Bah! Também o é manter escumalha Oculta longe desta terra – atira Hayato, batendo com o metal do cachimbo no cinzeiro, para se livrar dos restos carbonizado, enquanto lançava à vampira um sorriso que tinha tanto de troça como de encorajamento – mas a ideia é, justamente, não teres de o fazer sozinha. Eleanora-chan, enfrentaste a justiça yokaie ganhaste, quão difícil poderá ser combater milénios de ódios para unir todos os Ocultos e exterminar os Obliteradores? Caso para se resolver numa estação, certamente, não?
            
   - Ah! Ah! Mais uma vez dá-me mais crédito do que mereço, Hayato-san – agradece, rasgando um imenso sorriso e fazendo uma pequena vénia. – Tentarei não desiludir.
            
   Apoio não era algo que o velho tengu desse à toa. Por ligeiro e informal que fosse o seu tom, a força e confiança patente nele era suficiente para dispersar as dúvidas que enublavam a mente de Eleanora, pelo menos, durante algum tempo. A vampira batia-o em idade e vira muito mais do que ele, todavia, por algum motivo, a sabedoria simples e a autoridade sólida do ancião, confortavam-na, como se viessem de alguém muito mais velho, cujo saber assentava nas raízes do Tempo.
            
   Hayato desejava que ela ficasse, porém, compreendia porque é que ela tinha que partir. Tal como ele não se sentia capaz de aceitar o exílio numa aldeola perdida nas montanhas, vendo o mundo passar, Eleanora não conseguiria ficar escondida entre os yokai, enquanto lá fora os Ocultos continuavam a ser exterminados pelos Obliteradores. Nenhum deles era capaz de cruzar os braços, quando sabiam poder fazer algo.
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Tuesday, June 5, 2012

Conto: "Dança do Corvo (6ª parte) – Entre velhos amigos"


   A única coisa que Hayato, como todos os da sua espécie, odiava mais que caminhar em vez de voar, era ter um tecto sobre a cabeça. Espaços fechados eram para vermes, seres que não conheciam a glória e liberdade de planar pelos céus. Excepto durante tempestades, escolhia sempre estar ao ar livre, por isso a pequena celebração que mandara preparar para Eleanora ocorrera sob as estrelas e a Lua. Nada de muito elaborado, pois o velho tenguera um guerreiro simples, pouco dado a luxos. Apenas uma toalha vermelha, numa clareira limpa, sobre a qual fora colocada uma mesa baixa, com sake e sushi, enquanto, para a vampira, fora reservada uma bela e pálida mulher, de longos cabelos negros, vestida apenas com um fino quimono íntimo, branco como a mais pura das neves.
            
   A refeição aproxima-se do fim. Hayato, sentado na toalha, de pernas cruzadas debaixo do corpo, fuma o seu delgado e longo cachimbo, lançando anéis de fumo, enquanto Sora e Shou levam a mortal drenada pela vampira. Apesar de completamente desidratada, a sua expressão é tranquila, como se tivesse adormecido pacificamente, para nunca mais acordar.
            
   O velho tengu vê Eleanora repor o haori negro desprovido de emblemas sobre o ombro, cobrindo o braço decepado. Levará tempo, mas voltará a crescer. Ela afirma-o e ele sabe que assim é, lembrando-se perfeitamente da noite, há quase 30 anos, em que lhe cortara um braço e quase a matara. Trocar o privilégio de caminhar sob o sol por imortalidade, a capacidade de curar feridas num piscar de olhos e insensibilidade à dor, parecia um bom negócio a Hayato. Pudesse a sua espécie executar tal transformação e ele não hesitaria, por impuros que os vampiros fossem considerados pelos yokai.
            
   Foram tais poderes que deram a vitória à vampira, embora de pouco lhe tivessem servido no passado. Hayato e Eleanora tinham o mesmo peso e força muscular, mas a velocidade superior dele tê-la-ia fulminado se ela não usasse o próprio braço com escudo, abrandando o golpe da katana do tengu por uma fracção de tempo, tão pequena que era impossível de medir. Um batimento de coração. Um piscar de olhos. Quantas vezes a vida de um guerreiro era decidida nessas meras fracções?
            
   “Um bom combate” pensa Hayato, sorrindo com o cachimbo nos lábios, lamentando apenas não poder repetir a experiência tão cedo.
            
   - Ajuda este velho tolo a entender, Eleanora-chan – pede, afastando o cachimbo e voltando o rosto para os lábios da convidada, pintados com sangue fresco. – Decides colocar pé nestas terras numa época em que a tua presença é ilegal, tanto pela lei humana como yokai. Sofres e passas todas as nossas provas pelo direito a ficar, recebendo dos yokai o salvo-conduto que te permite caminhar entre nós. Privilégio conquistado por poucos Ocultos, devo acrescentar. Escapas também à justiça humana, para a qual eras um alvo tão fácil, com os teus cabelos louros e redondos olhos claros, tão vincadamente estrangeiros. Mantiveste-te entre nós durante os turbulentos dias do fim da Era Tokugawa. Agora, com sakoku abolida há quase vinte anos, em que o teu aspecto já não é motivo para perseguição humana e que a Bakumatsu acabou, dando-nos algo parecido com paz, é que desejas partir? Sei que esta Era Meiji ainda tem muito que provar, mas já estiveste ao nosso lado durante pior.
            
   - Hayato-san – retorque, acariciando a bainha negra da sua katana desprovida de guarda, que lhe jazia junto ao joelhos – se é verdade que uma parte de mim deseja ficar e que os dias que se avizinham aparentem ser mais pacíficos que os anteriores, especialmente para uma Oculta estrangeira, também é inegável que, com o fim da Guerra do Ano do Dragão, os yokai se vêem, cada vez mais, obrigados a tomar importantes decisões sobre o seu lugar no mundo dos homens. Tokugawa acabou. Bom ou mau, o tempo dos Meiji não será igual.
            
   Hayato sabia-o bem. A abertura aos estrangeiros, que ele defendera como uma das razões para Eleanora permanecer, obrigara, e ainda obrigava, a mudar séculos de tradicional interacção entre os yokaie os humanos daquele país. Ao contrário dos oni, cuja tolerância e colaboração com os humanos variavam de indivíduo para indivíduo, durante séculos os tengutinham lutado lado a lado com os samurais, aliando-se aos clãs dos senhores feudais que conquistavam o seu respeito. Agora, com a queda da nobreza feudal, erguiam-se vozes dissonantes. Alguns defendiam que deviam retirar-se completamente do mundo humano, procurando refúgio nas suas aldeias nas montanhas, tal como, segundo as lendas, os seus parentes do continente fizeram, há milénios atrás. Outros afirmavam que o melhor seria camuflarem-se na sociedade humana, tal como alguns Ocultos ocidentais. Eleanora tinha razão, cada espécie, cada indivíduo, teria de escolher como enfrentar aquele mundo em mudanças.


Monday, June 4, 2012

Conto: "Dança do Corvo (5ª parte) – Por honra"


   - Não desonrarei meus mestres alegando que a vitória se deveu a sorte, contudo, também recuso a garantir, sem sombra de dúvida, que seria capaz de repetir a proeza – defende, embainhando a katana, colocando-se de joelhos e fazendo a testa tocar no solo, na mais profunda e respeitosa das vénias. – O desabrochar de uma única flor não embeleza a cerejeira. Ainda tenho muito que aprender dos nobres mestres que me precederam até poder considerar-me ao seu nível. Perdoe-me se na minha ânsia por mostrar o que aprendi e para me provar perante si o ofendi, todavia, creio que pior teria sido fingir-me inferior. Em todo o caso – acrescenta, sorrindo, incerta se não estaria ir longe demais – se fôsseis um guerreiro menos… controlado, as costelas e braço que lhe parti não fariam o meu golpe parecer tão clemente.
            
   Por resistente que um tengu fosse, os seus ossos ocos, cruciais para voar, eram mais delicados que os dos humanos. Embora não tão sangrento como o corte de uma lâmina, o golpe de Eleanora poderia ter sido igualmente fatal, espetando ossos partidos de encontro a órgãos internos. O mero acto de respirar devia provocar-lhe dores horríveis, mas Hayato, numa incrível demonstração de autocontrolo, escondia-o magistralmente.
            
   Eleanora manteve a testa no chão, à mercê dos yokaivoadores, não sabendo se a sua ousadia conseguira salvar amizade e honra, até que uma poderosa gargalha ecoa pela noite.
    
   - Ah! Ah! Ah! Espantoso! Espantoso! Ah! Ah! Bem dito, Eleanora-chan! – elogia Hayato, rasgando um imenso sorriso, que o fazia assemelhar-se a um animado velhote após beber mais que a sua conta. Cada gargalhada fazia vibrar as costelas partidas, sem que ele parecesse importar-se muito com isso, ignorando por completo as dores. A agressividade do seu rosto evapora-se como se toda a tensão anterior tivesse sido apena parte de uma piada. – Um bom combate, sem dúvida. Há muito que não me divertia tanto! Aprendeste muito desde o nosso primeiro encontro, Eleanora-chan.
    
   - Apenas porque enfrento grandes lutadores como Hayato-shishio e Shou-senpai – garante, levantando-se e fazendo uma pequena vénia para o jovem tengu.
            
   - Não sejas tão modesta e formal! – pede, bem-disposto, à medida que os arqueiros aterram aos seus pés, um deles com a bainha da sua katana. – Mais uma vez provaste que fizemos bem em poupar-te, Oculta-chan, e deixar-te caminhar em solo yokai. Vem, celebremos, Irmãzinha, e talvez me possas contar aquilo que te perturba, enublando ambiente tão festivo. Shou-kun, fecha a boca! Sora-kun, mexe essas asinhas e manda preparar repasto. Estou esganado!
            
   Eleanora não conseguiu evitar sorrir. Assim era Hayato, ferocidade em batalha apenas superada pela sua hospitalidade e boa disposição.     

Sunday, June 3, 2012

Conto: "Dança do Corvo (4ª parte) – No fio da lâmina"


   Os dedos magros, sólidos e providos de garras da mão direita de Hayato mantém-se em redor do punho da katana, que nem ao ser arremessado largou, a sua expressão de ave de rapina tão acutilante como o gume da ancestral lâmina. A pele vermelha é coberta por um quimono cinzento, folgado, de tecido barato, com aberturas nas costas para as asas, e por uma tanga larga, diante da qual se encontra um grande pedaço de tecido rectangular que se alonga até aos joelhos, no qual está pintado o kanji para corvo, o emblema do seu esquadrão. No solo, as suas asas, com penas negras e brancas, parecem desgrenhadas, velhas e decadentes, tendo uma penugem mais própria para um espanador do que para um nobre tengu, porém, no ar são transformadas pela graciosidade de um voo capaz de fazer cisnes parecerem desajeitados.
            
   - Kenji-kun treinou-te bem, Eleanora-chan – elogia o ancião, tenso apesar do tratamento informal. O seu rosto vermelho, ladeado por orelhas bicudas, era iluminado pelo luar, enquanto os guerreiros em redor se mantinham na escuridão.
            
   - Akio-sensei foi apenas um de muitos cuja sabedoria abençoou esta humilde estudante, Hayato-sama – afirma, fazendo uma respeitosa vénia, sem tirar os olhos do yokai ou embainhar a espada, bem consciente da proximidade de Shou e da letal lâmina curva da naginata dividida. – As suas bondosas palavras honram-me e às suas ilustres casas.
            
   - Agrada-me saber que ensinar o seu estouvado avô não foi tempo perdido – confessa, flectindo as asas com aparente indiferença. – Contudo, desde os dias que Ichimaru-kun subiu a montanha em busca da sabedoria tengu na arte da espada, que ninguém da sua nobre casa conseguiu voar tão alto.
            
   - Não tenho o privilégio de pertencer a tão nobre casa – alega, compreendendo bem o rumo da conversa e o que estava em causa, mesmo sem estar segura do resultado. Hayato era um guerreiro nobre e sábio, mas também orgulhoso e, pelo que constava, a idade tornara-o temperamental e instável.
            
   - O que não te impediu de não só derrotar, como poupar um velho tolo – acusa o ancião, amargura bem patente na voz.
            
   Aí reside o cerne da questão. Os guerreiros de Hayato vivem por um conjunto regras de conduta reduzidas em número, mas abrangentes em efeito, entre as quais tomam primazia a honra, a abnegação perante a morte e a ferocidade em combate. A arte da guerra era levada muito a sério e, mesmo em sessões de treino como aquela, cada ataque era feito com intento de matar. Embora os guerreiros mais jovens, como Shou, ainda tivessem dificuldade em abraçar a noção, a morte de um camarada de armas, mesmo às mãos de um aliado, por algo tão banal como um treino, não era motivo para tristeza, raiva ou culpa, pois a preparação para a batalha tomava precedente face a tudo o resto. Vida era insignificante perante a honra. O facto de Eleanora não só ter conseguido vencer Hayato, como tido o sangue frio para, em pleno ataque, golpeá-lo com o lado rombo da katana e não com o gume, provava a sua superioridade a um ponto que o mestre consideraria humilhante. Um guerreiro orgulhoso como o velho tengupreferiria a honra do golpe fatal, à clemência e agora, mantendo-se diante dela, em digno silêncio, exigia saber o porquê da atitude.
            
   No ver da vampira, qualquer que fosse a sua resposta, só poderiam existir dois possíveis resultados, Hayato insistiria no combate, pretendendo limpar a humilhação com sangue, qualquer que fosse a sua fonte, ou dar-lhe-ia a honra de requerer a sua ajuda durante o ritual de seppuku. Embora não desejasse decapitá-lo enquanto ele se esventrava, também não arriscaria ofendê-lo, ainda mais, recusando. Não desejava a morte do velho tengu… A única esperança residia nas suas palavras poderem criar uma terceira alternativa.

Saturday, June 2, 2012

Conto: "Dança do Corvo (3ª parte) – A queda"


   Shou pisca os olhos e o combate entre a vampira e velho tengu termina, tão rápido que apenas os danos provam que ocorreu de todo. Um braço é decepado por entre uma nuvem de sangue, convertendo-se em osso e depois em pó antes de cair no chão, sofrendo numa fracção de segundo a decomposição que lhe fora negada durante séculos pelos poderes da filha da noite. O sangue no coto estanca quase de imediato, enquanto os farrapos ensanguentados da manga esvoaçam em redor. Regenerando perante o olhar de todos, uma linha vermelha rasga a garganta de Eleanora de lado a lado, indicando que o fim não estivera longe, contudo, é o seu inimigo que jaz a vários metros de distância, arremessado pelo impacto do golpe.
        
   - Sensei!
    
   - Hayato-sama!
   
   Aflitos, os yokai voadores confluem sobre o mestre caído, ignorando a adversária. Apenas Shou, o mais novo, solta um clamor de fúria e dor, lançando-se sobre Eleanora, num suicida voo picado, naginata em punho. A vampira mal tem tempo de se voltar para enfrentar a investida, antes de ser abalroada. Os adversários rebolam pelo chão, por entre folhas secas e poeira. Quando se afastam, preparando o ataque seguinte, a arma do tenguestá cortada ao meio e a filha da noite é obrigada a regenerar outra ferida no pescoço. Mais dois ou três centímetros teria sofrido uma decapitação e com ela a derradeira morte…

   Sem perder tempo, o tengu atira as asas de penas castanhas em frente, utilizando-as como uma espécie de capa para cobrir as mãos e os fragmentos da arma dividida. A técnica visava esconder a direcção do ataque que executaria com as armas improvisadas, estratégia que não funcionaria tão bem contra alguém que podia ver sangue através de objectos sólidos…

   Shou prepara-se, Eleanora segura a katanacom firmeza, usando apenas uma mão, posicionando-a num ângulo em que o seu próprio corpo a esconde do adversário, e lançam-se um sobre o outro.

   - PAREM!
   
   O grito em japonês que ecoa pela noite não é um apelo desesperado, mas uma ordem férrea, proferida por uma voz habituada a ser obedecida. Sem magia para além da autoridade e respeito que o portador inspira, a palavra suspende os adversários em pleno ataque, impedindo-os de cortarem a garganta um ao outro.
   
   - Hayato-jijii? – pergunta Shou, chocado, sem afastar do pescoço da vampira a lâmina curva da naginata partida.
   
   Ombreado pelos yokai mais novos, o velho tengu ergue-se sobre as próprias pernas, os seus pés bifurcados, cada um dos quais providos de duas garras aquilinas à frente e uma atrás, cravados no solo. Mantinha a habitual dignidade e autoridade, apesar dos cabelos, normalmente presos no topo da cabeça, caírem soltos pelo rosto e de ter folhas mortas na triangular barba branca que lhe desce até ao peito, onde, surpreendentemente, apenas espreita um hematoma por entre o meio aberto e largo quimono cinzento, em vez do rasgão sangrento que o golpe da vampira deveria ter deixado.
   
   - Shou-kun – diz o ancião, dando a entender que o jovem devia baixar a arma e afastar-se da vampira.
   
   O mais jovem dos yokai demora a cumprir a ordem, tendo dificuldade em lidar com a mistura de raiva, orgulho, alívio e surpresa que experiencia.
   
   - Puff! – solta, ao recuar e colocar descontraidamente ao ombro a ponta provida de lâmina da arma cortada, rasgando um sorriso trocista para simular indiferença e procurar esconder aquilo que sente. – Parece que afinal, Shisho-jijii não foi abatido, só tropeçou.
   
   Um dos outros yokai pretende repreender Shou pela rudeza, mas Hayato, habituado a ela e dando-lhe pouca importância, impede-o, voltando os olhos negros e longo nariz aduncado para a vampira. Eleanora baixa a katana e retribui o olhar, como se não existisse mais ninguém no mundo senão ela, aquele humanóide alado, de pele vermelha, e uma tensão de cortar à faca entre eles. Embora não parecesse, a batalha ainda não terminara…            



Friday, June 1, 2012

Conto: "Dança do Corvo (2ª parte) – O mais poderoso"


   Disparadas da segurança da copa das árvores, pelos assimétricos yumi dos tengu, com uma força impossível a qualquer arco de fabrico humano, as flechas não só são extremamente rápidas, como invisíveis ao Pulsar. Felizmente, os ouvidos de Eleanora foram treinados para detectar o menor sinal de disparo e os seus reflexos são sobrenaturais. Desvia-se do primeiro projéctil, que se vai espetar no solo remexido, e move-se ligeiramente para levar com o segundo no peito em vez do ombro. Consciente que uma flecha nas articulações lhe toldará os movimentos, tornando-a um alvo fácil, dá-se ao trabalho de fugir de projécteis que não a podem matar ou sequer provocar dor.        
   
   As vagas de ataques tornam-se mais intensas, obrigando-a a mover-se freneticamente em redor, saltando, rodando sobre si mesma e rebolando pelo chão, por entre uma cacofonia de metal a cantar de encontro a metal. Nem todos os golpes são desviados ou aparados, cortes nas vestes e pele multiplicam-se. Onde outros contemplariam uma situação cada vez mais desesperada, Eleanora vê oportunidades. Três soldados de infantaria, dois arqueiros, cinco atacantes, ou seja, muitas falhas na rede. E estavam a ficar cada vez mais descuidados… 
   
   Eleanora volta a atirar-se ao chão, rebolando para o lado e aproveitando para agarrar um punhado de terra, que lança ao tengumais próximo, ao levantar-se, fazendo-o falhar o ataque e quase não conseguir defender o contra-ataque. O tengu da katana afasta-se, executando um voo muito mais largo do que o habitual, enquanto esfrega os olhos. Ao mesmo tempo, a vampira desvia-se de uma investida e corta a ponta da lança do adversário seguinte, que é forçado a uma manobra de emergência para evitar despenhar-se. O terceiro yokai quase lhe arranca a katana das mãos com a naginata, mas as suas forças acabam por provar-se demasiado equilibradas para uma se sobrepor à outra.
   
   Recebendo mais duas flechas nas costas, enquanto vê os inimigos voarem para longe, de modo a ganharem balanço para as investidas seguintes, Eleanora não se sente aliviada com as tréguas, pois sabe que ainda lhe falta enfrentar o mais velho, perigoso e poderoso dos yokai voadores. Ele encontra-se perto, nas sombras, à espera da altura certa para atacar…
   
   Todos eles eram fulminantemente rápidos e furtivos, mas Hayato fazia os demais parecerem folhas a cair com indolência numa brisa outonal. Ao senti-lo aproximar-se por trás, atacando de um ângulo impossível, Eleanora apenas tem tempo de tirar a mão esquerda da katana enquanto se vira. Um golpe. Tudo ou nada, num único movimento. Sem espaço para errar.  


Thursday, May 31, 2012

Conto: "Dança do Corvo (1ª parte) - Asas na escuridão"

   O vento desliza pelos ramos, fazendo estalar as folhas ao luar. Pés pequenos, envoltos em waraji esmagam o solo amolecido pela chuva, ao adoptarem uma posição sólida, em preparação para a batalha. Uma mão pálida, aparentemente delicada, ergue-se para agarrar a bainha negra à cintura, atada com firmeza de encontro ao hakama, enquanto outra atravessa diante da barriga, pousando sobre o punho da katana desprovida de guarda.

   Entre árvores milenares, cuja altura parece desafiar o Céu, envolta em sombras que enegrecem a sua palidez sobrenatural, está uma pequena guerreira loura de feições cheias, quase angelicais. Os seus olhos azul-esverdeados brilham a cada mudança de luz.

   O silêncio e o negrume escondem uma paz falsa. Ela sabe que não está sozinha. Sente o bater dos corações e, pelo canto do olho, consegue ver os inimigos moverem-se entre as copas. À distância que estão, o sangue que lhes corre nas veias, que devia ser para ela como fogo na escuridão, não passa de uma faísca fugaz. Conhecendo bem a rapidez dos adversários, a filha da noite não se deixa enganar pela ilusória segurança que o espaço entre eles proporciona.

   Procurando suprimir o nervosismo, a vampira passa a língua pelos caninos. Nesse exacto momento, um dos corações bate mais depressa, fazendo-a virar para o atacante, que voa na sua direcção, batendo as asas ruidosamente, naginata em mãos.
 
   “É uma distracção” apercebe-se, sacando da espada e preparando-se para atacar o outro inimigo que plana na sua direcção, vindo de trás. Vê-o, ficando impressionada por constatar que se encontra tão relaxado, que o coração bate como se estivesse sentado a beber chá e não no coração de uma batalha. Não fosse pela sua experiência, a vampira nunca o teria sentido aproximar-se. Infelizmente, também ele era um engodo.

   Mesmo com Pulsar, Eleanora quase não detecta a tempo um tengu que cai do céu em voo picado, directamente sobre a sua cabeça, qual falcão-peregrino a tomar partido do ângulo morto, sendo apenas graças aos seus reflexos sobrenaturais que consegue evitar ser empalada pela longa lança. Desviada pela katana, a lâmina dupla da lança limita-se a rasgar de alto a baixo a manga esquerda do quimono masculino, enquanto Eleanora recua, saindo do caminho do Oculto voador, na esperança que ele se despenhe ao falhar o alvo. Demonstrando uma incrível perícia física e agilidade mental, o yokaivoador recupera de imediato, planado graciosamente para longe, sem sequer tocar no chão. A vampira sente as penas das asas do inimigo no rosto, mas não reage a tempo de lhe acertar.

   Quase de imediato, vê-se obrigada a usar a katanapara desviar a lâmina de outro tengue depois a rebolar sobre o ombro para fugir à naginata de um terceiro, aquele cujo coração batia com o poder de ondas a esmagarem-se contra penedos.
 
   A mortal dança prossegue. Os três yokaivoadores, rápidos e precisos, acossam-na em círculos cada vez mais apertados, em vagas que a impedem de concentrar-se num alvo. A vampira baixa-se e, em vez de ficar sem pescoço, é-lhe cortado o rabo-de-cavalo louro, preso no topo da cabeça. Rolando para a frente desvia-se de uma arma e, dessa posição vulnerável, deflecte outra com a katana. Os cabelos soltos caem-lhe sobre o rosto ao erguer-se, sendo então que os arqueiros atacam.


Próxima: Dança do Corvo (2ª parte) – O mais poderoso

Wednesday, May 30, 2012

Temos conto!

  Amanhã, aqui no blogue, começarão as publicações do conto com a personagem que escolheram de "Crónicas Obscuras - A Vingança do Lobo", Eleanora "Lâmina Sangrenta" Reeve, intitulado:

Crónicas Obscuras: Dança do Corvo   


Monday, May 28, 2012

Diário Visual: 28 de Maio de 2012

Conto "500 seguidores" com Eleanora it's a work in progress...

Kiseru (cachimbo japonês). Primeiro draft do conto de Eleanora está feito.   O que falta?  Outra passagem de olhos, martelar certos pormenores, rever, deixar a marinar, rever outras vez, passar pelos beta-readers e voltar a rever. (Será que estou a rever quanto baste? Que se lixe, quando em dúvida mais uma revisão).

And the winner is...

  Eleanora "Lâmina Sangrenta" Reeve! Sem grande surpresa a vampira bitch slaps the competition. No início ainda houve em despique entre ela, Vik e Lance, mas depois acelerou, fazendo-os comer uns bons quilinhos de poeira.

  Eleanora arrecadou 31% dos votos. Medalha de prata foi para Vik Fenrissky (18%) e a de bronze para Lance "Meia-Raça (15%).

  A única verdadeira surpresa foi o 4º lugar ter ido para Kate Midwaay, com 10% dos votos. Talvez a vejamos ascender em iniciativas futuras...

  Monk e Roy McAllister ficaram empatados nos 7%, enquanto os demais candidatos receberam valores demasiado insignificantes par mencionar.  

  Resta saber, será que na próxima sondagem, Eleanora voltará a ganhar?

  Prometido é devido e em breve terão o belo do conto.



Friday, May 25, 2012

Diário Visual - 25 de Maio de 2012

  Trabalho de hoje foi esquematizar e fazer pesquisa para possíveis contos com as personagens de "A Vingança do Lobo", com especial atenção àquela que provavelmente será a vencedora da sondagem (a não ser que haja uma corrida às urnas...).

  Assim sendo, para não abusar no número de imagens, aqui ficam apenas algumas das áreas pesquisadas:
Naginata e katana. Prováveis protagonistas em 3 dos 4 potenciais contos que tenho imaginados para a personagem Eleanora Reeve.

Yari (neste caso específico penso ser uma su yari, mas acho que isso já seria entrar em tecnicismos...), mais uma arma que provavelmente será usada nos contos. 

Arco longo japonês (yumi). Este só é visado num dos tais 4 potenciais contos.
  

Monday, May 21, 2012

Diário Visual - novo formato

  Esta semana vamos fazer uma pequena experiência, em vez de apresentar o que se passa no estirador de "Crónicas Obscuras" através de resumos semanais das publicações do álbum "Diário Visual", passaremos a fazê-las diariamente, tal como na página no Facebook. Só para ver qual dos formatos é mais interessante.

  Começaremos pelas imagens relativas a 20 de Maio de 2012. Todas elas pertencem ao trabalhos de revisão da versão inglesa de "Crónicas Obscuras - A Vingança do Lobo" (Dark Chronicles: The wolf’s revenge):
Topielec, fantasma de um humano afogado. O espírito na imagem é um pouco mais bonitinho do que os descritos, não obstante, foi a melhor que encontrei. Quem leu o livro sabe a relação entre os topielce e a Plataforma dos Fenrison. 

Helicóptero Huey, similar ao pertencente a Eleanora "Lâmina Sangrenta" Reeve, pilotado pelo vampiro Balavan

Lançador de granadas Arwen 37, uma das arma que utilizada pela vampira Linda  na batalha na Plataforma.

M16, arma utilizada pelo vampiro Roy McAllister na batalha na Plataforma. 

AK-47, arma utilizada pelo vampiro Custler na batalha final de "A Vingança do Lobo".
PS: eu sei, dar-lhe o nome Custler tornou um pouco óbvio o seu destino.





Sunday, March 4, 2012

Behind the Scenes: Writer’s Log IX

  Melhor que a última semana, mas mesmo assim apenas dois capítulos. Muita pesquisa e passei algumas horas a aperfeiçoar a orientação da narrativa, assim como as características de certas personagens, mas escrita propriamente dita nem por isso.

  Por outro lado, recebi de Inês Neves, uma fã e amiga, a versão “chibi” de Eleanora “Lâmina Sangrenta” Reeve, o que me agradou muito. Veremos se em breve “chibi” Eleanora terá companhia… 
  Já que tenho tão pouco para dizer esta semana, gostaria de vos fazer uma pergunta: gostariam de ver resumos semanais do "Diário Visual" aqui no blog ou preferem continuar a acompanhar apenas as actualizações diárias na página de Crónicas Obscuras no Facebook?

Tuesday, February 21, 2012

Behind the Scenes: Writer’s Log VII

  Esta semana o Writer’s Log chegou um pouco atrasado, peço desculpa. Sabem como é, a vida tem a irritante tendência de escapar ao nosso controlo, por mais que tentemos evitá-lo.

  De qualquer modo, a semana passada foi relativamente produtiva a nível literário, concebendo os 4 primeiros capítulos de CO-TP e extensa pesquisa para o mesmo. O projecto continua ainda numa fase muito embrionária, o que torna quase impossível fazer qualquer tipo de previsões, contudo, estou cautelosamente optimista. Verdade que esta semana o trabalho não está a correr como previsto, mais por minha culpa do que por qualquer factor exterior, mas julgo que conseguirei dar a volta por cima. Veremos.

  Entretanto, a semana passada também foi interessante a nível de conteúdos extra-blog, como se lembrarão graças ao post "A Vingança do Lobo" fora de casa - fanart e outras surpresas. Neste post faço aquilo que prometi no anterior e partilho convosco a fanart de Ana C. Nunes sobre quatro personagens de “Crónicas Obscuras – A Vingança do Lobo”. Se quiserem ver mais dos trabalhos de Ana dêem um salta a Asas da Mente.     


Thursday, January 26, 2012

Sexualidade em Crónicas Obscuras

  Após o último post, fazia todo o sentido responder à pergunta “Existem personagens homossexuais em Crónicas Obscuras? Ora, uma vez que apenas posso falar das narrativas disponíveis ao público (“A Vingança do Lobo”; “Vigília” e “O Farol”) terei de dar uma resposta entre o “sim” e o “talvez”. Já explico.

  Pegando apenas nas 36 das personagens “mais importante” de “Crónicas Obscuras – A Vingança do Lobo”, existem 17 heterossexuais, 3 bissexuais (Eleanora, Gabriela e Miguel) e 16 classificados como indefinidos, ou seja, personagens cuja sexualidade não é relevante para a história e não afecta o seu modo de agir, por isso, nunca me dei ao trabalho de as “balizar sexualmente”. Por exemplo, Logan e Paul Ferguson são Obliteradores que vivem obcecados com a missão de eliminar Ocultos, contudo, nada sabemos sobre as suas preferências e, verdade seja dita, para o caso, elas não importam.

  Quero com isto dizer que entre estes 16 indefinidos haverão homossexuais? Talvez. Tudo depende se voltarei a pegar neles e se revelá-lo será relevante para as narrativas em questão.    

  No que diz respeito aos contos. “O Farol” tem apenas três personagens distribuídas em menos de mil palavras e em nenhuma delas é abordada a sexualidade. Em “A Vigília” todas as personagens foram descritas como estando, ou tendo estado, em relações heterossexuais, contudo, Brona tem o hábito de se apaixonar por pessoas, não por géneros.

  A questão da sexualidade ganha contornos mais complicados, quando tomamos consciência que além do factor “género” temos a condicionante “espécie”. Em “Crónicas Obscuras” existem vários casos de relações entre espécies diferentes, alguns bem aceites e outras nem por isso. Obviamente, a questão não é linear, variando muito de personagem para personagem, contudo, existem tendências:

  Exemplo 1: os vampiros são muito liberais a nível sexual, tendendo mais para a bissexualidade, do que para a homo ou hetero. Por outro lado, no que diz respeito a relações entre espécies, não hesitam em envolver-se com humanos, mas ficam de pé atrás com outro Ocultos. Em “A Vingança do Lobo”, isto é bem visível com Eleanora, que sempre teve amantes vampiros e humanos, de ambos os sexos, sem nunca ter ouvido uma única crítica, até ao momento que se envolveu com um lobisomem.

  Exemplo 2: Os lobisomens tendem a ser extremamente preconceituosos no que diz respeito a relações com outras espécies e mesmo entre raças diferentes de licantropos, dado à sua obsessão com a pureza do sangue. Quanto à homossexualidade, ainda não me ocorreu escrever sobre a sua relevância entre os licantropos, não obstante, tendo em conta a personalidade deles como espécie, é provável que se ela existir será às escondidas. No debate sobre o tema, não posso deixar de mencionar o fenómeno biológico Atracção: (http://cronicasobscuras.blogspot.com/2010/05/lobisomens-atraccao.html).    

Friday, September 23, 2011

Behind the Scenes: Baptismo VI – Eleanora

  A avaliar pelas opiniões que tenho recebido dos fãs, esta publicação de “Behind The Scenes – Baptismo” será das mais aguardadas. Finalmente falaremos sobre a origem do nome de uma fan favorite a vampira Eleanora “Lâmina Sangrenta” Reeve.
 
  Em primeiro lugar, é preciso de dizer que Eleanora é um caso singular entre as personagens de “Crónicas Obscuras – A Vingança do Lobo”, pois trata-se da única cujo nome não foi da minha exclusiva responsabilidade. Os fãs do blogue mais atentos saberão que meia dúzia das personagens de “Crónicas Obscuras” são baseadas em pessoas reais. Melhor dizendo, as características físicas e algumas psicológicas desses indivíduos foram usadas como base do character building antes de eu lhes dar as pinceladas finais, altura em que ganharam vida própria e se começaram a distanciar dos modelos originais. Não só a minha amiga Inês Neves não é uma vampira, como não acredito que seja capaz de decapitar um lobisomem com um só golpe de katana (contudo, quem já a viu com uma vassoura nas mãos não descarta essa hipótese…).
 
  Na época em que o universo de “Crónicas Obscuras” ainda se encontrava na “sopa primordial” das minhas notas, onde Eleanora era apenas conhecida como “a personagem da Inês”, pedi à fonte de inspiração para me ajudar a baptizá-la, parecendo-me apenas justo que ela tivesse esse direito.
 
  Assim sendo, Eleanora teve dois “padrinhos”: eu que lhe dei o epíteto e Inês Neves que lhe concedeu o nome próprio e o apelido.
 
  Sobre o epíteto “Lâmina Sangrenta” a sua razão de ser não carece de grandes explicações, prendendo-se com as qualidades dela como guerreira, nomeadamente, o modo letal como manobra a sua katana de bainha negra, desprovida de guarda. Quanto ao resto, deixarei a explicação nas mãos da responsável.
 
  Isto foi o que ela me respondeu, ipsis verbis, quando lhe pedia ajuda para este post
 
  “Bem, em relação ao nome Eleanora, já que ela vinha de uma família nobre, apesar de empobrecida, fui pesquisar nomes com uma origem medieval, que inspirassem um sentimento de cultura e refinamento... Como sabes, limitei a pesquisa a dois nomes: Beatrice e Eleanora (inspirado na Leonor de Aquitânia). Como disseste que Beatrice era nome de pessoa tenrinha (e é), acabou por ficar um dos melhores nomes que ouvi! :)

   Quanto a Reeve, também pesquisei apelidos ingleses que tivessem uma origem bastante antiga, visto que, já que a família dela era empobrecida no século XVI/XVII, parti do princípio que tivessem tido o seu período áureo na época medieval. Reeve é um dos mais antigos apelidos ingleses, de origem anglo-saxã, e quer dizer qualquer coisa como xerife ou um responsável por executar a lei (construí a minha própria história de como a família podia ter ganho o título nobiliárquico por serviços prestados à coroa... lol perdoa-me as liberdades!"

:)
Ficaram esclarecidos?

Friday, August 26, 2011

Behind the Scenes: Baptismo II – Os Arcanjos

  Este foi mais uma ocasião em que a baptismo teve pouca ciência, pois, a partir do momento que decidi dar o denominação de Arcanjos ao trio de vampiros que Eleanora “Lâmina Sangrenta” Reeve criou para a ajudarem a suportar a imortalidade, as hipóteses ficaram condicionadas, restando-me apenas fazer o “jogo das cadeiras” com as personagens e nomes.

  Assim sendo, Gabriel tornou-se Gabriela e foi utilizado na única personagem feminina do trio, pois achei que sempre soaria melhor que Rafaela ou Miquelina. Quanto a Miguel e Rafael a escolha prendeu-se exclusivamente com a cor dos cabelos da personagem e não com os seus feitios. Achei que Miguel ficaria melhor para um louro e Rafael para um moreno. Porquê? Não faço a mínima. Manias, suponho…

Friday, July 22, 2011

Behind the scenes: Os Midwaay

  O facto de um escritor estar consciente de todos os componentes que constituem as suas personagens reflecte-se na escrita, mesmo que esses elementos não sejam mencionados directamente.

  Por exemplo, a vida familiar de Eleanora Reeve quando era humana é irrelevante para os eventos narrados em “Crónicas Obscuras – A Vingança do Lobo” e o mesmo se pode dizer das dezenas de pequenos episódios que imaginei para outras personagens, sem ter intenção de os partilhar com os leitores, porém, tais factores são cruciais para eu os ver como entidades tridimensionais, entendendo melhor o porquê de fazer sentido eles terem a atitude X ou Y.

  No início, os restantes familiares das personagens Kate, Helen, Carol e Caroline Midwaay, constituíam um exemplo perfeito disto, sendo entidades que defini superficialmente para dimensionar essas quatro Midwaay. Todavia, não demorou muito até o seu potencial literário se tornar evidente e quando isso aconteceu passou a ser incontornável aprofundar o tema. Agora, após um trabalho que teve tanto de exaustivo quanto de divertido, tenho à minha disposição um conjunto de personagens, cuja história familiar se estende ao longo de um século (na verdade é mais, tendo em conta que os Midwaay são apenas um ramo de um clã mais extenso, mas isso são conversas para outros posts). Além destes dados serem extremamente úteis para o meu projecto mais recente, “Crónicas Obscuras – Vínculos”, espero vir a utilizá-los para um conjunto de livros e contos. A ver vamos… Para já, fica aqui um cheirinho.  


Wednesday, May 25, 2011

Casting: Candidatos - Eleanora "Lâmina Sangrenta" Reeve II

Uma vez que o público avançou com novas candidatas para o papel desta carismática vampira, fazia falta um post que actualizasse a questão. Assim, as concorrentes são:

Claire Danes

 Mila Kunis

Camilla Belle (também candidata ao papel de Gabriela)

 Evan Rachel Woods
Quem acham que ficaria melhor?