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Thursday, June 7, 2012

Conto: "Dança do Corvo (8ª parte) – Despedidas"


   - Quando partes? – pergunta Hayato, largando o cachimbo e passeando os olhos pela linha de árvores, onde os seus guerreiros aguardavam ordens.
            
   - De imediato – responde a vampira, agarrando a katanae erguendo-se. – Dentro de 4 dias será Lua Cheia, espero chegar à costa antes disso.
            
   - Esperam-te? – questiona, levando a taça de sakeaos lábios, por entre as barbas brancas.
            
   - Cada Lua Cheia, na praia onde cheguei – afirma, encaixando a espada entre o cinto e o hakama, recordando o acordo que fizera com Miguel, na noite em que fora traficada para o país, dentro de um barril. Ao mesmo tempo procura esquecer que teria de voltar a atravessar o oceano, tentando esconder de Hayato o seu medo patológico de grande superfícies de água.
            
   - Durante mais de 30 anos? – admira-se o velho tengu, suspendendo a ingestão do sake e olhando de soslaio para os olhos azul-esverdeados da vampira. – Tens amigos estranhamente leais, Eleanora-chan.
            
   - Assim o espero – alega, sorrindo perante a lembrança dos belos olhos azuis e caracóis louros de Miguel. Sentia falta dele…
            
   - Não tens o salvo-conduto contigo – constata, pousando a taça e perscrutando a amiga com os penetrantes olhos pretos. – Irás buscá-lo? Oh… Estou a ver…
            
   - Far-lhe-á mais falta a ela do que a mim – defende, desviando o olhar, não se sentido confortável a discutir o tema. Tomara a decisão quando partira, não podia dar-se ao luxo de revisitá-la. Ou, pelo menos, não o queria…
            
   - Então irás sozinha? Ela sentirá a tua falta…
            
   - É melhor assim – reforça, tanto para si, como para o mestre, fingindo não ouvir a censura na sua voz. Sobre aquela questão não admitia o parecer de ninguém, nem mesmo dele.    
            
   Memórias insistem em surgir, ameaçando minar a sua resolução. Olhos amendoados, castanho-esverdeados, que desaparecem atrás das pálpebras quando a faz gemer de prazer. A sua mão a passar pelos longos e lisos cabelos negros, antes de desaguar na curvatura sinuosa de costas nuas. Lábios finos, pintados vermelhos pelo sangue fresco, que lhe acariciam o mamilo duro, antes de rodar a língua nele…
            
   Eleanora expulsa as recordações, temendo o seu poder. Fizera a sua escolha. Nada ganharia em mudar de ideias. Era melhor assim…        
            
   - Sabes que se não levares o salvo-conduto será difícil regressar. Talvez até tenhas de voltar a enfrentar as mesmas provações… – adverte o velho tengu. – Não podes contar que todos aqueles que se lembram de ti sobrevivam até lá…
            
   - Hayato-oji, viverás mais anos do que aqueles que já vi. O próprio Deus da Morte não te quer! – brinca a vampira, rasgando um riso malicioso, aproveitando para afastar o que a atormentava.
            
   - Ah! Verdade! Verdade! – concorda, batendo com a palma da mão no joelho. Via bem que algo consumia a amiga, porém, respeitando a escolha dela em não falar sobre o assunto, assim como, não querendo embaraçar-se perante a despedida, aceita a oportunidade para aligeirar a conversa. – Tentarei manter as coisas organizadas por aqui, enquanto espero a desforra, Eleanora-chan. A propósito, se vais sem salvo-conduto seria melhor teres companhia até à costa, não? Shou-kun poderá levar-te. Shou-kun, vem cá! É grosseiro, mas uma jóia de moço.
            
   - Eu sei – reconhece, vendo o jovem tengu de asas castanhas e naginata cortada, voar na sua direcção. – Hayato-sama, obrigado!
            
   A vénia é profunda, abarcando muito mais do que o agradecimento pela escolta e o mestre retribui o grau de reverência. Pela primeira desde que qualquer um dos jovens guerreiros se lembra, a testa de Hayato-sama toca no solo. Então souberam que a Oculta os superara, tornando-se não só uma verdadeira yokai, como um dos Corvos.       

Monday, June 4, 2012

Conto: "Dança do Corvo (5ª parte) – Por honra"


   - Não desonrarei meus mestres alegando que a vitória se deveu a sorte, contudo, também recuso a garantir, sem sombra de dúvida, que seria capaz de repetir a proeza – defende, embainhando a katana, colocando-se de joelhos e fazendo a testa tocar no solo, na mais profunda e respeitosa das vénias. – O desabrochar de uma única flor não embeleza a cerejeira. Ainda tenho muito que aprender dos nobres mestres que me precederam até poder considerar-me ao seu nível. Perdoe-me se na minha ânsia por mostrar o que aprendi e para me provar perante si o ofendi, todavia, creio que pior teria sido fingir-me inferior. Em todo o caso – acrescenta, sorrindo, incerta se não estaria ir longe demais – se fôsseis um guerreiro menos… controlado, as costelas e braço que lhe parti não fariam o meu golpe parecer tão clemente.
            
   Por resistente que um tengu fosse, os seus ossos ocos, cruciais para voar, eram mais delicados que os dos humanos. Embora não tão sangrento como o corte de uma lâmina, o golpe de Eleanora poderia ter sido igualmente fatal, espetando ossos partidos de encontro a órgãos internos. O mero acto de respirar devia provocar-lhe dores horríveis, mas Hayato, numa incrível demonstração de autocontrolo, escondia-o magistralmente.
            
   Eleanora manteve a testa no chão, à mercê dos yokaivoadores, não sabendo se a sua ousadia conseguira salvar amizade e honra, até que uma poderosa gargalha ecoa pela noite.
    
   - Ah! Ah! Ah! Espantoso! Espantoso! Ah! Ah! Bem dito, Eleanora-chan! – elogia Hayato, rasgando um imenso sorriso, que o fazia assemelhar-se a um animado velhote após beber mais que a sua conta. Cada gargalhada fazia vibrar as costelas partidas, sem que ele parecesse importar-se muito com isso, ignorando por completo as dores. A agressividade do seu rosto evapora-se como se toda a tensão anterior tivesse sido apena parte de uma piada. – Um bom combate, sem dúvida. Há muito que não me divertia tanto! Aprendeste muito desde o nosso primeiro encontro, Eleanora-chan.
    
   - Apenas porque enfrento grandes lutadores como Hayato-shishio e Shou-senpai – garante, levantando-se e fazendo uma pequena vénia para o jovem tengu.
            
   - Não sejas tão modesta e formal! – pede, bem-disposto, à medida que os arqueiros aterram aos seus pés, um deles com a bainha da sua katana. – Mais uma vez provaste que fizemos bem em poupar-te, Oculta-chan, e deixar-te caminhar em solo yokai. Vem, celebremos, Irmãzinha, e talvez me possas contar aquilo que te perturba, enublando ambiente tão festivo. Shou-kun, fecha a boca! Sora-kun, mexe essas asinhas e manda preparar repasto. Estou esganado!
            
   Eleanora não conseguiu evitar sorrir. Assim era Hayato, ferocidade em batalha apenas superada pela sua hospitalidade e boa disposição.     

Sunday, June 3, 2012

Conto: "Dança do Corvo (4ª parte) – No fio da lâmina"


   Os dedos magros, sólidos e providos de garras da mão direita de Hayato mantém-se em redor do punho da katana, que nem ao ser arremessado largou, a sua expressão de ave de rapina tão acutilante como o gume da ancestral lâmina. A pele vermelha é coberta por um quimono cinzento, folgado, de tecido barato, com aberturas nas costas para as asas, e por uma tanga larga, diante da qual se encontra um grande pedaço de tecido rectangular que se alonga até aos joelhos, no qual está pintado o kanji para corvo, o emblema do seu esquadrão. No solo, as suas asas, com penas negras e brancas, parecem desgrenhadas, velhas e decadentes, tendo uma penugem mais própria para um espanador do que para um nobre tengu, porém, no ar são transformadas pela graciosidade de um voo capaz de fazer cisnes parecerem desajeitados.
            
   - Kenji-kun treinou-te bem, Eleanora-chan – elogia o ancião, tenso apesar do tratamento informal. O seu rosto vermelho, ladeado por orelhas bicudas, era iluminado pelo luar, enquanto os guerreiros em redor se mantinham na escuridão.
            
   - Akio-sensei foi apenas um de muitos cuja sabedoria abençoou esta humilde estudante, Hayato-sama – afirma, fazendo uma respeitosa vénia, sem tirar os olhos do yokai ou embainhar a espada, bem consciente da proximidade de Shou e da letal lâmina curva da naginata dividida. – As suas bondosas palavras honram-me e às suas ilustres casas.
            
   - Agrada-me saber que ensinar o seu estouvado avô não foi tempo perdido – confessa, flectindo as asas com aparente indiferença. – Contudo, desde os dias que Ichimaru-kun subiu a montanha em busca da sabedoria tengu na arte da espada, que ninguém da sua nobre casa conseguiu voar tão alto.
            
   - Não tenho o privilégio de pertencer a tão nobre casa – alega, compreendendo bem o rumo da conversa e o que estava em causa, mesmo sem estar segura do resultado. Hayato era um guerreiro nobre e sábio, mas também orgulhoso e, pelo que constava, a idade tornara-o temperamental e instável.
            
   - O que não te impediu de não só derrotar, como poupar um velho tolo – acusa o ancião, amargura bem patente na voz.
            
   Aí reside o cerne da questão. Os guerreiros de Hayato vivem por um conjunto regras de conduta reduzidas em número, mas abrangentes em efeito, entre as quais tomam primazia a honra, a abnegação perante a morte e a ferocidade em combate. A arte da guerra era levada muito a sério e, mesmo em sessões de treino como aquela, cada ataque era feito com intento de matar. Embora os guerreiros mais jovens, como Shou, ainda tivessem dificuldade em abraçar a noção, a morte de um camarada de armas, mesmo às mãos de um aliado, por algo tão banal como um treino, não era motivo para tristeza, raiva ou culpa, pois a preparação para a batalha tomava precedente face a tudo o resto. Vida era insignificante perante a honra. O facto de Eleanora não só ter conseguido vencer Hayato, como tido o sangue frio para, em pleno ataque, golpeá-lo com o lado rombo da katana e não com o gume, provava a sua superioridade a um ponto que o mestre consideraria humilhante. Um guerreiro orgulhoso como o velho tengupreferiria a honra do golpe fatal, à clemência e agora, mantendo-se diante dela, em digno silêncio, exigia saber o porquê da atitude.
            
   No ver da vampira, qualquer que fosse a sua resposta, só poderiam existir dois possíveis resultados, Hayato insistiria no combate, pretendendo limpar a humilhação com sangue, qualquer que fosse a sua fonte, ou dar-lhe-ia a honra de requerer a sua ajuda durante o ritual de seppuku. Embora não desejasse decapitá-lo enquanto ele se esventrava, também não arriscaria ofendê-lo, ainda mais, recusando. Não desejava a morte do velho tengu… A única esperança residia nas suas palavras poderem criar uma terceira alternativa.